
Quando peguei no telefone pela centesima vez, não cheguei a marcar o número. Já tinha liagado a todos os que precisavam saber. O meu irmão, a minha tia, os meus primos. Todos estavam convocados para o funeral do meu pai, amanha a tarde.
Fiquei parada, desorientada, a olhar para esta casa vazia. Parecia abandonada, tal o silencio que reinava aqui dentro. O relógio dizia-me que estava na hora de ir ao hospital, mas não queria ir sozinha.
Peguei no meu telemóvel, sabia exactamente a quem ia ligar. Só ele me entendia, só a dor dele se podia compara a minha. Sim, porque a há anos que o meu irmão se tinha afastado de nos.
Ele atendeu nos primeiros toques, achei que ele deveria estar com o telemóvel na mão para me ligar, e isso fez-me sorrir.
- Diz, pequenina?
- Podes vir ter comigo?
- Estou a tua porta, vem cá fora.
- Até já.
Pois, típico. Eu e o Miguel somos assim, como que se pressentíssemos que tínhamos de ir ter com o outro. As vezes pensava se seriamos parte da mesma peça, destinados a encaixar.
Ele estacionava o carro, enquanto eu saia para o terraço. Pouco via da sua cara mas eu sabia que espelhava a minha, tirando os olhos inchados de chorar. Perguntava-me quantas mais lágrimas choraria até estas secarem de vez.
Fiquei feliz ao vê-lo sair do carro e encaminhar-se para mim, abraçando-me. Com os seus braços a proteger-me, o vazio dentro de mim diminuiu, recuou um pouco. Os meus olhos encheram-se de lágrimas novamente.
Senti que ele se afastava, encarando-me.
-Amo-te, pequenina. Sabes disso, não sabes?
Acenei com a cabeça dizendo que sim, sem conseguir falar.
Pegou-me na mão e pouso-a no seu coração.
- Bate por ti, pequenina.
Olhei-o nos olhos, sentindo o sabor das suas palavras. O meu também bate por ti, tentei dizer-lhe naquele olhar profundo.
Ele aproximou-se devagar, dando-me tempo para me afastar. Não o fiz, chegava de dor, e de incertezas.
Senti o calor dos seus lábios nos meus, e mais lágrimas caíram. No meio de tanta tristeza, uma pequena felicidade nascia, sem medos, sem vergonhas.